[RESENHA] Robyn – Body Talk

Luis Felipe —  02/12/2010 — 8 Comments

Robyn não é uma popstar convencional. Depois de seis anos parada, lançando apenas um ou dois brilhantes singles no caminho, no começo do ano a cantora revela sua meta para 2010: lançar três álbuns, que juntos iriam compor um projeto chamado Body Talk. Um método não muito comum, convenhamos, mas a cantora parece simplesmente não ligar. Ela quis fazer seu disco do seu jeito, lançá-lo no seu próprio selo e liberá-lo da sua maneira, e a conseqüência de tudo isso é o melhor projeto pop do ano.

Aguardar o processo do lançamento dos três álbuns seria algo simples, caso nunca tivéssemos ouvido nada da Robyn antes, porém ele conta com um impecável antecessor, o Robyn, divisor da carreira da cantora, e aí, as expectativas são inevitáveis. Desde as primeiras entrevistas, algo já estava definido: Robyn iria tomar um caminho mais disco-friendly, com os grandes clubes europeus tomados como influência, e com as músicas “Konichiwa Bitches”, uma de suas canções mais cruas e energéticas, e “With Every Heartbeat”, seu clássico-pop, como ponto de partida . Nada mal até então, mas não devemos esquecer que não temos nenhuma canção no Robyn que funcione bem em uma pista de dança. Na verdade, canções como “Be Mine” e “Bum Like You” soam extremamente orgânicas, e mesmo com alguns samples no meio, as músicas eram melhores se ouvidas em qualquer lugar fora dos clubes. A peocupação tomou conta, então, em como Robyn adicionaria o seu próprio toque em canções feitas primeiramente para um ambiente considerado o templo hedonista moderno de bebidas, drogas e sexo, mas como ela mesmo diz em “Include Me Out”, sua receita “é muito fácil, sendo apenas um simples pulso repetido num intervalo regular”. Porém, assim como a “fórmula” da Coca-Cola é extremamente simples na teoria, na prática, Robyn consegue fazer canções extremamente complexas, que te obrigam a dançar, mas ao mesmo tempo sentir as batidas e suas emoções. No final, Robyn não fez apenas ótimas músicas para dançar, mas sim ótimas músicas.

A música que inicia o projeto todo é “Don’t Fucking Tell Me What To Do”, a perfeita carta de apresentação à Robyn e sua pessoa, onde a cantora libera todos os seus demônios e os extermina um por um. O que se segue na primeira parte, na verdade, é um disco bem variado, com canções mais darks (“None of Dem”), um pseudo-reggae (“Dancehall Queen”), e o brilhante primeiro single, e um dos pilares do projeto, “Dancing On My Own”, uma continuação do emotronic já apresentado pela cantora em “With Every Heartbeat”, que já emerge como uma das melhores músicas do projeto. O maior destaque, entretanto, fica com a brilhante, e melhor música de todos os Body Talk, “Cry When You Get Older”. Com uma voz de robô e um gigantesco coração de metal, Robyn fala sobre o cotidiano, sobre sua infância, sobre o tédio, sobre o amor, e acima de tudo, sobre nossa juventude-internet, retratando os momentos mais banais, mas mais deliciosos, da nossa geração. Passado o primeiro impacto, eis que surge a segunda parte, com canções mais consistentes, que faziam jus à ideia do projeto, com sonoridade mais parecida e de fato dançante, mas sem nenhuma grande canção dessa vez, mas o que não fez dele um álbum ruim. Foi como se Robyn tivesse guardado as melhores faixas para sua terceira parte, que chegou com a explosiva “Indestructible”, na minha opinião o melhor dos três singles, justamente pela sua mistura de eletrônico com os deliciosos violinos de sua versão acústica. Após a faixa, o que se segue são as quatro (das seis) melhores canções do projeto, um combo difícil de se bater. “Time Machine” é uma das melhores canções de Robyn de todos os tempos, e produzida pelo gênio Max Martin, conta com a cantora no volante de um Delorean a 200 km por hora, implorando pra voltar no tempo para mudar “aquele pequeno detalhe” que faria toda a diferença; “Call Your Girlfriend”, com Robyn assumindo o papel da “outra”, é uma espécie de continuação da trilogia dos três singles, e conta com um sublime middle-8, que vai te fazer derreter só de ouvir; “Get Myself Together”, que lembra a brilhante “Cry When You Get Older”, com uma melodia e um refrão difícil de esquecer; e para fechar com chave de ouro, “Stars4Ever”, com seu refrão duplo praticamente infectante, uma aula na verdade de como se fazer uma canção pop e chiclete, porém de qualidade.

robyn

Porém no final, o “Body Talk”, álbum único, contém algumas falhas. A primeira e principal delas sendo a omissão de “Cry When You Get Older”, a canção que definiu o projeto e mostra porquê a Robyn é diferente das outras popstars. A segunda sendo a escolha bem estranha da ordem das músicas, com “Don’t Fucking Tell Me What To Do”, a música que serve principalmente para abrir o disco, colocada logo após a energética “Fembot”, e “We Dance To The Beat”, uma canção bem chatinha, colocada perdida no disco e logo após a não-tão-excitante “None of Dem”. Minha terceira reclamação, na verdade, é com o projeto em si, visto que os três álbuns conseguem ser perfeitamente distintos um dos outros, cada um com sua própria sonoridade, e ao meu ver, devem ser ouvidos na íntegra e na ordem de lançamento. Mas na verdade, não importa como você ouça o disco. Robyn conseguiu, mais uma vez, algo difícil de se ver por aí. Ela acabou com meus dois principais medos, o primeiro sendo sua capacidade de lançar três sólidos discos num mesmo ano, e o segundo, talvez mais importante, foi sua capacidade de incorporar sua própria (e forte, e importante, e RELEVANTE) personalidade, num gênero que basicamente peca na falta de afeto ou calor humano.

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9,0 – Ótimo

Robyn - Body Talk [Konichiwa Records; 2010]
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