Sonar Festival – Barcelona 2015 (3 Dias)

Felipe —  18/11/2014 — Leave a comment

Repostagem do dia: 26 de junho de 2015

Uma semana pós Sonar nunca é uma semana fácil. O festival nos transmite uma energia tão boa e tão especial, que sair dessa inércia é doloroso. E ainda, necessitamos um tempo para recuperar o corpo e a mente, porque o evento tem dimensões destruidoras, um cansaço sofrido e ao mesmo tempo maravilhoso.

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Antes de qualquer coisa, parabenizamos o festival por ter chegado à cifra de aproximadamente 120 mil pessoas, calculando os três dias e todas as pessoas que passaram por lá. É uma quantidade considerável de gente. Todos aficionados por música eletrônica, tecnologia, inovação e novas mídias. O conceito do festival cada ano se consolida mais como um evento vanguardista nesse âmbito. Em 2015, o festival arriscou uma mudança, utilizando criatividade e inovação tecnológica como carros-chefes. Uma tentativa de sucesso ao se reinventar.

Essa foi a quarta vez que estivemos presentes como imprensa para fazer a cobertura do festival. A primeira em 2012 no Brasil, e as outras três consecutivas, 2013, 2014 e 2015 em Barcelona, o berço do evento. Como todos os anos, o festival era dividido em dia e noite, cada um em partes diferentes da cidade. Dentro do Sonar Dia haviam os palcos SonarVillage, SonarDôme, SonarHall, Hall+D e Sonar Complex. Já o Sonar Noite, tinha o SonarClub, SonaPub, SonarLab e SonarCar. A seguir faremos uma descrição detalhada de cada dia.

Primeiro Dia

Sonar Dia acontece na Fira Montjuic em Barcelona, para quem conhece a cidade, o local está ao lado da Plaza Espanya, lugar super bem localizado, cêntrico e onde acontecem alguns dos maiores eventos e congressos do mundo. Chegar ao local é fácil, e por ser o primeiro dia, tentamos chegar o mais cedo possível para driblar as filas e conseguir a credencial de imprensa antes do exército de jornalistas e câmeras que vem do mundo inteiro para o festival.

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Depois de entrar, o primeiro show que assistimos foi o do Kindness, apresentando pela primeira vez na Espanha seu trabalho “Otherness”. Um concerto calmo, mas especial, que ficou marcado pela peculiaridade de conseguir criar uma intimidade com o público desde o primeiro momento. Uma mistura de synth-pop e funk muito tranquila, mas que colocou nos eixos toda a gente e fez logo com que começassem a entrar no clima do festival. Em seguida Kasper Bjorke trouxe sua mistura divertida de 70’s com música eletrônica para os gramados artificiais do SonarVillage. Sem decepcionar, o artista dinamarquês manteve a animação e aura chill criada por Kindness. Ainda no mesmo palco vimos um pedaço do show do J.E.T.S. (confesso que não conhecia, mas depois descobri que é um projeto de Jimmy Edgar e Machinedrum – este que vimos o ano passado também no Sonar). Aqui a coisa muda, e a mistura entre electro-funk e dance se unem para levantar todas as pessoas que insistiam em assistir os shows sentadas. Ainda por ali passaram Felix Dickinson e para terminar o dia Hot Chip, os queridinhos universais que insistem na fórmula do vintage-pop. Optaram por um show fácil, mandando hit atrás de hit pondo todo mundo para pular. Um show apenas agradável, sem uma novidade ou surpresa.

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Ainda no primeiro dia do Sonar Dia, vimos parte do show do Alejandro Paz, artista chileno dono do super hit “El House”. Um deep house divertido, que mistura vocais em inglês, espanhóis e ainda adiciona ingredientes africanos e sulamericanos à sua música.

A maior surpresa e um dos shows mais esperados do dia foi sem dúvida Arca & Jesse Kanda. Arca já tem na carteira a produção de discos de ninguém menos que Björk e FKA Twigs, e ainda participação num álbum do Kanye West. Coisa que para um artista tão novo é louvável. A criação de um estilo tão particular e meticuloso, fizeram com que o artista venezuelano conquistasse uma multidão de gente em seu show. Um espaço totalmente escuro e sombrio, com sua música introspectiva e inebriante soando como um conto de terror, onde o artista quase nu fazia movimentos macabros, dançava e em alguns momentos gritava e cantava a plenos pulmões.  As projeções audivisuais de Jessie Kanda completavam a esquizofrenia, corpos dançantes multiplicados, galáxias e objetos futuristas vidravam nossos olhares. O ritual estava completo, e ali foi onde ele ganhou todos os nossos corações.

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Segundo Dia

                 Depois de uma noite mais ou menos descansada, seguíamos novamente para o segundo dia do Sonar Día. Primeiro show que veria seria Teengirl Fantasy, pop futurista, que mistura anos 90 com psych-dance e música experimental. No palco SonarDôme, só conseguimos ver o final do show, devido à uma fila inesperada na entrada do segundo dia. Sem muita informação, seguimos para o show da Kate Tempest, passando rapidamente pelo show do mestre dos violinos Owen Pallet. Kate é pura atitude, uma mulher loira, meio sem jeito fazendo um hiphop poderoso, deixando boquiaberto todo o público ali presente. Diga-se de passagem, não era pouca gente, e a artista não decepcionou, gritou a plenos pulmões seus versos ousados e provocativos.

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A partir daí começou a loucura, queria ver um pouco de cada coisa, e entre empurrões e perder-me de meus amigos, vi um pedaço do show do Ossie, Kiasmos, Squarepusher e corri pegar o finalzinho do show do Nick Hook, ultralotado antes de seguir para o primeiro e tão esperado Sonar Noite.

A experiência é insana. Apesar de ambos os locais serem perfeitos para o Sonar, existe um delay, um tempo que se perde locomovendo-se de um espaço para outro. Entretanto ainda é necessário tempo para comer alguma coisa (sim, é preciso se alimentar durante o festival), e descansar para a maratona que é a parte da noite do festival.

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Depois destes pormenores, estávamos a postos esperando o espetáculo de A$AP Rocky começar. Sem dúvida um dos shows mais cheios de todo o festival. Insanidade absoluta. Parecia que 80% das pessoas que estavam ali queriam estar próximas do cantor, o que tornava o ambiente um caos. Tivemos de nos afastar para bem longe do palco, caso quiséssemos nos mover. Coisa que foi bem escolhida. A$AP é pura gritaria, uma legião de fãs ensandecidos pela ira do hiphop. Apresentando seu último e aclamadíssimo álbum “At Long.Last.Asap” ninguém melhor que ele para por toda aquela multidão aos pulos. Já na metade do show, foi com tristeza que deixamos o SonarClub e seguimos para o SonarPub, onde Roísín Murphy (ex-Moloko) também apresentava seu novo disco “Overpowered”. A mega diva do trip-hop, já com 20 anos de carreira, sabe como agradar o público, mas nem por isso se esforça para tanto. Faz o que lhe dá vontade, e sabe que a multidão vai chorar, gritar e espernear com ela. Um show sentimental, melodramático e ao mesmo tempo empoderador. Que mulher!

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Ficamos ainda no mesmo palco para assistir mais uma vez o quão poderosos os T.E.E.D. (Totally Enormous Extinct Dinosaurs) são. Já os vimos em outras versões do evento, mas a surpresa nunca é suficiente. Já à metade do show abandonamos para correr mais uma vez para o SonarClub, onde os deuses sul-africanos do Die Antwoord fariam um dos melhores espetáculos de todo o festival. Ninja e Yo-Landi sabem como pôr um público em polvorosa, e se no show do A$AP Rocky não havia espaço para se mover, no do Die Antwoord não havia espaço para respirar! Mas mesmo assim respiramos, dançamos e pulamos muito. O êxito da banda não é por acaso. Foram todos os hits como uma enxurrada de mísseis, um dos momentos sublimes do evento. Todo o público cantando em coro, alto e bom tom cada um deles. Ainda, o show é um espetáculo à parte, com troca de roupas, coreografias impecáveis, e movimentos em cima do palco que são dignos apenas de deuses.

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Correria novamente, mas aqui a memória já se nubla um pouco. Jamie XX era outro dos shows mais esperados da noite. Expectativa alta, expectativa cumprida. Jamie fez até os mais céticos terem fé, que sua música eletrônica deve ser posta numa espécie de altar. Aqui disco e UK Garage se casam, e essa cerimônia é impecável. Vale aqui citar a grandeza de cada hit, “Gosh”, “Loud Places (Ft Romy)” e “I Know there’s Gonna Be” parecia que estava sendo entoada pelos céus, tamanho o êxtase criado pelo artista.

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Vimos ainda trechos de RL Grime, SOPHIE, Daniel Avery, Seth Troxler, The 2 Bears e terminamos a noite com o aclamadíssimo Roman Flügel, DJ residente da discoteca Berghain de Berlim, considerada uma das melhores do mundo.

Terceiro Dia

Chega esse momento e o corpo já está em frangalhos, mesmo assim encontramos energias especiais para seguir em frente. Aqui temos um dos momentos mais tristes da trajetória. Já chegando ao terceiro dia do Sonar Dia, na expectativa de ver o show do ZEBRA KATZ. Na correria fomos direto ao SonaHall, mas só depois de um par de músicas, nos demos conta de algo errado ali. Apesar daquele eletrônico maravilhoso estar penetrando nossa alma, nos demos conta que estávamos no show errado, do Evian Christ. Nem tudo ali estava perdido. O show foi espetacular, a sincronia entre a música e o audiovisual era transcendental. Sai correndo, mas não cheguei à tempo ao curto concerto de queer hip hop do nosso amigo ZEBRA KATZ. Se nos faz contentar, ano passado não perdemos o do Mykki Blanco.

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Terminada a correria, sentamos no gramado artificial do SonarVillage, aproveitamos o sol, e a ecleticidade dos colombianos do Bomba Estéreo. É um tipo de som meio indescritível, tem ali reggae, musica latina, eletrônica, as vezes me lembrava até axé. Mas foi divertido, e o show pareceu durar horas, enquanto estávamos todos ali estirados no chão tentando recuperar energias. Terminado Bomba Estereo, entrou Henrik Schwarz e pôs em questão de minutos toda a gente em pé, aos pulos e berros. Houve até uma versão remix maravilhosa de London Grammar, “Wasting My Young Years”, que foi entoada por toda a multidão.

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Saímos cedo outra vez do Sonar Dia, rumando para o último dia do Sonar Noite. Aqui o segundo momento de tristeza do evento. A fila para entrar no Sonar Noite estava escandalosa. Por conta disso nos atrasamos e perdemos o começo do show de ninguém menos que FKA Twigs. Aquela figura que vista ao longe parece tão frágil, foi uma das coisas mais poderosas que poderia ter visto em todo o festival. Uma bomba de sensualidade, atitude e todos os outros elogios que Tahliah merece. Cada segundo daquele show era inesquecível, cada movimento, cada gemido, cada batida seca, cada silêncio ensurdecedor, cada centímetro quadrado. Mais uma vez fomos surpresos pela maravilhosa e inovadora FKA Twigs, com sem dúvida,  o melhor show de todo o festival. Muita gente de certo modo estava frustrada, esperando um show eletrônico  super dançante. Mas é preciso estar no mood, entender a introspecção, entender a mensagem que ela nos passa.O show foi excepcional. Depois disso já podia ir para casa satisfeito.

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Mas não fui. Aproveitei para ver parte do fantástico Cashmere Cat, Erol Alkan, e finalmente o artista headliner de todo o festival. The Chemical Brothers, que apresentava seu novo álbum “Born In The Echoes”. Artista que dispensa muitas descrições. O show levou a multidão ao delírio, suas projeções dançavam e pululeavam quase tanto quanto o público. Momento auge do show foi “Hey Boy Hey Girl”, sendo evocada como um hino. O show é planejado para ser um espetáculo, e acontece de maneira completa, sincronizando música, atuações, projeções e principalmente a participação dos espectadores.

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Passamos depois disso conferir o show de Annie Mac, Siriusmodeselektor, e terminamos a noite com o impecável e sempre presente Laurent Garnier, que mesmo sendo um dos últimos artistas a se apresentar, consegue entender sobre o cansaço, e mesmo assim coloca todo mundo nos trilhos, e põe todos os zumbis presentes para dançar.

 Sonar +D e considerações

                 Além de todo o mega cartaz de espetáculos, esse ano o festival mudou o formato de apresentação do Sonar +D. O que antes era um espaço especial para apresentar projetos de arte, tecnologia, mídias e inovação, esse ano se transformou num congresso. Cheio de eventos, palestras, instalações, atividades interativas, transformações digitais que as indústrias culturais apresentam. Cada ano o festival ganha maior importância nesse âmbito, e marca um importante passo em direção ao futuro.

                A experiência de um Sonar, cada vez é mais indescritível. Tudo do que escrevi aqui, não representa metade do que é vivenciado pessoalmente nos dias que ocorrem o festival. Estrutura impecável em todos os aspectos, desde organização com a imprensa, com o público geral, nos bares, estruturas de banheiros, filas, segurança, estandes, alimentação e tudo o que envolve um festival dessa magnitude. Nosso obrigado mais uma vez pela oportunidade de fazer a cobertura de um dos festivais mais importantes do mundo. Próximo encontro Sónar São Paulo de 24 a 28 de Novembro de 2015. Em breve mais informações.

Crédito fotos: indiespot.es


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