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O Festival Sonar já considerado um dos festivais mais consolidados e renomados de música eletrônica do mundo terminou sua 23ª edição há poucas semanas. O delay do post nos permite distanciar um pouco do êxtase causado pelo evento. Uma enxurrada de shows incríveis, realizados em vários espaços distintos numa organização de dimensões invejáveis apenas confirma o que já havíamos observado há tempos. Depois de 4 anos consecutivos indo ao festival como imprensa, tanto na versão de São Paulo como na sede do evento em Barcelona, nos serve para afirmar que o festival tem portes e direção que não dão passo em falso.
2016 foi o ano da diversidade de estilos musicais que se englobam dentro do gênero de música eletrônica. Shows que juntos englobam uma infinidade de estilos, deep house, dubstep, techno, trap, minimal, hiphop, rap, e mesmo assim todos ali tem seu espaço. O lineup não nos deixa mentir.

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Primeiro Dia

Sem rodeios o dia de abertura do festival já prometia alguns dos shows mais esperados. Bela surpresa foi ver logo no inicio Acid Arab. Colocados estrategicamente no palco Sonar Village (o maior dos palcos do Sonar Dia). O nome revela a essência, uma mistura hipnótica de acid com vocais e ritmos árabes, criam uma aura incrível para aproveitar o entardecer. Sevdaliza era para mim uma das maiores curiosidades, como havia sido em seu momento o show de FKA Twigs. Dadas as proporções, Sevdaliza foi e entregou o prometido. Com uma dose cavalar de sensualidade e atitude a artista consegue catalisar todo o seu repertório num show extasiante. Iraniana, ex-jogadora de basquete, a cantora usa o corpo para se expressar de maneira extremamente sensual.

Jamie Woon ou Kelela? Estava a dúvida plantada desde o princípio. Mas como é costume em festivais, tentei conciliar em ver metades de cada um. Jamie Woon começa com azar, seu microfone não funciona. Depois de poucos instantes tudo solucionado. E seu espetáculo segue o planejado, extremamente fofo e cativante. Com o álbum “Making Time” recém lançado em 2016, o festival foi o momento ideal para divulgá-lo. Ápice com “Night Air” e “Movement” quando o público foi ao delírio. Com o coração apertado por ter que deixar o resto do show, corri para pegar o final de Kelela, que também foi surpreendente. Acho que nunca se viu a sensualidade tão em vóga quanto vemos agora. O show no cenário Sonar Hall (mesmo lugar onde passou no ano anterior seu produtor Arca) estava abarrotado de gente. Apesar de ter durado apenas 40 minutos, e de ter visto pouco mais da metade disso, na minha opinião um dos melhores shows do festival. “Rewind” foi o ponto alto com o público cantando cada sílaba em coro. Arrepiante. Consegui ver também partes pequenas dos shows de Lady Leshurr, iNSALAR e James Rhodes. Grande tristeza do primeiro dia foi ter perdido o show do Bob Moses.

Segundo Dia

Segundo dia com previsão de tempo ruim, nublado, com chuva e com sol. Mas adiante, chegamos para o show do Ata Kak, ganês que já tem na carteira outras versões do evento, sabe como colocar o público pra dançar. Não chega a ser um Omar Souleyman, mas também não fica para trás. Santigold foi uma mistura dolorosa de horror e diversão. Um show extremamente quadrado, era possível ver que cada segundo daquilo ali tinha sido planejado, desde as roupas, as coreografias das dançarinas, e inclusive cada movimento da própria cantora. O que vale é que suas músicas são contagiantes. Não fosse por isso todo o espetáculo, sem nenhum improviso e sem nenhuma originalidade, tinha sido um grande fiasco. Pulando os degraus altos dessa decepção, vamos falar de Roots Manuva, que representava a diversidade, essa eterna mina de ouro que é o rap, o dub e o hiphop. Em lado oposto à isso John Grant fazia seu espetáculo beirando ao queer. Já com os olhos no relógio, planejava seguir em direção ao Sonar Noite. Como todos os anos, Sonar Dia e Sonar Noite são realizados em locais distintos, e leva mais ou menos uns 40 minutos para ir de um ao outro.

Ansioso pelos shows da noite, cheguei a tempo no palco SonarPub, onde em instantes iniciaria o show de ANOHNI. Com o álbum “Hopelessness” recém lançado, a expectativa para o show era enorme. Apesar de ter sido um show bastante completo, o encanto se esvaia a cada música. O concerto foi extremamente básico, sem surpresas e sem nenhum tipo de interação com o público. A transexual tem uma voz impressionante e alcança todas as notas que propôs na produção do álbum, mas o show deixou muito a desejar. Fim do show, palco seguinte SonarClub para o também super esperado James Blake. Outra decepção. Também com o álbum “The Colour In Anything” recém lançado, a expectativa era altíssima, mas o show foi mediano, sem muita empolgação, sem surpresas e sem nenhum momento super empolgante. Mas valeu a pena, James tem talento. Sai correndo na metade-final para alcançar uma parte do show do Flume. Com uma seleção certeira nas músicas o show foi bastante animado e colocou toda a pista em polvorosa. Dentre o vai-e-vém vimos trechos de Angel Molina, Jean-Michel Jarre, Richie Hawtin, The Martinez Brothers, Mano Le Tough, John Talabot e Four Tet. Vários desses nomes são figuras sempre presentes em cada uma das versões do Sónar. Nunca falham, sempre com público lotado e aos pulos. A chuva não deu muita trégua, por isso o público fugia um pouco das partes abertas e em boa parte do tempo se concentrava no SonarCar, onde estavam os carrinhos de bate-bate, sempre um espetáculo à parte no festival.

Terceiro Dia

Confesso que o terceiro dia sempre é pesado, o cansaço acumulado dos dias anteriores faz com que a energia se esvaia. Mas estamos sempre firmes. Havia planejado e estava ansioso para o show da Lafawndah, para Yung Lean e Badbadnotgood mas por problemas pessoais não consegui chegar a tempo. Entrei bastante tarde no Sonar Dia do terceiro dia e só consegui ver dois shows. O final de Oneohtrix Point Never e Howling. Posso afirmar aqui que esse segundo foi sem dúvida um dos melhores shows do festival. Howling é projeto paralelo dos mesmos integrantes de Ry X e The Acid. O show foi no SonarHall e estava completamente cheio. O público estava em transe absoluto com a maestria e sincronia entre sons, luzes e vocais. Além das músicas do álbum “Sacred Ground” a dupla também tocou uma música do The Acid, que levou a multidão ao delírio, com seu minimalismo, synth pop e bases de trance.

Após chegar ao último dia do Sonar Noite fomos direto e sem dúvidas para o show do New Order, clássico que dispensa comentários. Show excepcional que inclusive tocou a aclamadíssima “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division. Santigold mais uma vez, dispenso. Esperava pelo show do KAYTRANADA que aconteceria no mesmo palco. Infelizmente perdi o show do Mura Masa que estava bastante curioso para ver. Dentre outros ainda vi partes de Booka Shade, Eats Everything, Skepta, Boys Noize, Fatboy Slim, Laurent Garnier e para terminar Ben Klock, o DJ residente do Berghain en Berlim (clube mais conhecido e mais nebuloso do mundo – considerada melhor discoteca do mundo várias de vezes).

A 23ª edição do Festival, contou com nada menos que 115.000 pessoas nos 3 dias de evento. Pessoas de 101 nacionalidades diferentes ao redor do mundo borbulhavam em Barcelona. Se tivesse que dizer 1 show preferido, acho que diria Howling, pela espetáculo surpreendente que superou quaisquer expectativas. Decepções ficam algumas na memória, ANOHNI, James Blake, Santigold.

Durante esse próximo ano de espera, para quem não aguenta, acontecerão versões do festival em 8 lugares diferentes, entre cidades da Europa, Ásia e América do Sul. E para a versão de 2017 em Barcelona já temos data marcada: 15, 16 e 17 de Junho. Nos vemos lá!

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Após o lançamento do revigorante EP 1000, o londrino de 22 anos Ben Khan continua sua onda de lançamentos infalíveis com a densa “Blade (Tidal Wave Of Love)”, amostra de que o produtor, ao contrário de algumas de suas maiores inspirações (hmm, Jai Paul), não pensa em parar tão cedo. Aplicando seu estilo característico sobre uma produção eletrônica mas de base orgânica, a mistura de sintetizadores com guitarras funkies o aproximam de um R&B com sensibilidade pop, que, acrescentados ainda a um maremoto de samples e barulhos bem pontuados, culminam em mais um exemplo da genialidade de vanguarda do jovem produtor.

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Goste ou não, os meninos (e meninas) do PC Music chegaram pra ficar. O coletivo, formado por produtores que buscam “o novo pop” através da junção de elementos do chiptune, uma pitada de rave e pop japonês (tudo embalado num papel-presente verde neon), acaba de lançar mais um registro do selo, o novo single do Dux Content, projeto formado por Daniel H. e A.G. Cook. A tão-brega-que-chega-a-ser-cool “Snow Globe” chega com aqueles mesmos vocais computadorizados, que parecem daquela assistente do Google, numa produção repleta de sintetizadores agudos e estridentes, que parecem prestes a explodir de tanta sacarina. Não tem outro jeito, pois se não gosta das produções do PC Music, você não vai mudar de ideia com esta aqui. No jogo do “ame ou odeie”, ficamos com a primeira opção.

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Será que estamos diante do próximo estrondo musical de 2015? Com participação especial da jinga dancehall jamaicana de Popcaan e dos versos afro-caribenhos poderosos do haitiano Young Thuug, Jamie xx nos entrega mais uma amostra da sua genialidade e personalidade ímpar, sob o nome de “I Know There’s Gonna Be (Good Times)”. A obra, que faz jus ao nome, nos proporciona três minutos de puro good time, com uma batida brilhantemente pegajosa e uma produção leve e super dançante – que é um salve à inovação musical. O resultado final, obra do encontro de três personalidades completamente distintas, não apenas surpreende mas funciona como o depósito dos três melhores ingredientes em um caldeirão para criar uma poção especial. Integrante do álbum In Colors, a ser lançado dia 2 de Junho, não temos dúvidas de quem vem por aí um dos melhores lançamentos do ano.

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Como uma incógnita musical, o multi-instrumentista Favela parece ter encontrado seu próprio mundo de intimidades onde ousa com produções e composições com um aspecto bem peculiar. Combinando a delicadeza do Bon Iver com os sons futuristas do Jamie xx, não deve levar muito tempo para que Favela deixe o status de artista emergente para o mainstream. Tendo lançado um punhado elogiado de faixas no ano passado, o músico mostra-se seguro para liberar seu primeiro trabalho coeso junto ao selo Transgressive Records em junho deste ano. Carro chefe do EP de estréia, “Future Visions” encapsula tudo o que temos aprendido a amar em Favela mostrando aqui um pequeno avanço de produção com padrões de camadas muito mais intrínsecas. Submerso em emoção, o registro em chillwave encaixa-se como trilha perfeita para dias solitários acompanhados por uma bebida e embalados por pensamentos que tecem por otimismo. O trabalho leve carrega uma percussão que viaja sobre batidas tremulantes transmitindo uma sensação final extremamente agradável. Favela segue na divulgação do EP Future Visions que tem o lançamento programado para o dia 29 de junho.

Willow – F Q-C #7

Felipe —  11/05/2015 — Leave a comment

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Não há como negar que Willow já pode ser considerada uma gênia mirim. Com apenas 14 anos já co-produziu algumas canções próprias e vídeos, e diga-se de passagem o fez assustadoramente bem. Não é por ter um pai em Hollywood que ela ganhou fama por inércia – a menina é mesmo talentosa. No novo vídeo, ela confessou ao The Fader, que representou seus 4 chakras por meio da própria imagem, vestida em cores diferentes. Amarelo, auto-confiança; azul, a própria canção (ou voz); vermelho, o instinto de sobrevivência; e o preto é a combinação de tudo, dos componentes que à fazem única. A canção é inspirada em “Girlpool” do tUnE-yArDs com o Cree Summer, então não espere nada muito pop. Ainda arriscamos algumas outras semelhanças, com o Ibeyi e com o Dirty Projectors. Gênia!

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Mesmo que você goste do seu pop um pouquinho açucarado, cuidado ao se aproximar do novo single do easyFun, pra não ter uma overdose. Integrante do coletivo PC Music, que acaba de lançar sua primeira coletânea, o produtor faz jus ao selo com a explosão de glicose que é “Laplander”. Com uns vocais que soam como uma tentativa da GLaDOS de cantar j-pop, a canção é tão feliz que chega a dar medo, repleta de sintetizadores eufóricos e timbres estridentes que completam a produção esquizofrênica à-la Crystal Castles made in Tokyo. Se a doidera é seu estilo, corre pro Soundcloud do cara que a viagem continua.